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TRAJETÓRIAS PARA O REAL
APRESENTA



Queima prescrita


 
                        De uma coisa ela sabia, que gostava do tom de silêncio que as estrelas davam àquele lugar. Já havia estado ali, sempre gostara, admite. Mas, admite também que algo desta vez lhe fora distinto. Será a despedida do calor, a ameaça da frente fria que se aproxima ou apenas a sua solidão dentre tanto ruído abafado? Ela não sabia afirmar, talvez apenas todos eles num único pensamento.

                               Foi assim que percebeu que o vento se fora, levando consigo os últimos raios de sol, ‘deve ter sido aí que o frio se aproximara’. Deixara a porta aberta? ‘Não, quando se encerra o dia, ela se fecha’, disso ela sabia. À noite as presas se resguardam, apenas quem no olhar contem a fome se arrisca a sair pelo breu das florestas. Pensava, assim, que se existira algo que pudesse determinar um caminho, este era o instante - abandonado de quaisquer ideias pré-concebidas, habitantes do vão de uma ruptura, já inegável. Ela, porém, sabe que deve aguardar o amanhecer, fazer do seu momento o agradecimento pela noite vencida, ‘sim, a felicidade de cada alvorecer deve ser conquistada’.

                            Sabe que não seria nenhuma grande decisão, tampouco as pequenas, que definiriam sua trajetória. Parecia estranho, mas era exatamente ísso. Seriam as escolhas inevitáveis, quase casuísticas - certamente ao acaso - que determinariam o rumo pelo qual a bússola se guiaria. Precauções poderiam ser tomadas, mas jamais interromperiam a força da natureza, ‘o jejum aguça o faro do caçador’, afirmou o ancião. Assim que bastaram alguns dias distante para retornar à cena. Lembra que fazia tempo que andara por ali, a noite estava estrelada e podia-se sentir sua brisa suave sobre a pele, ainda que, contraditoriamente, fosse feita apenas de fogo. Constata que fora, definitivamente, o imponderável que determinara seu destino, mas, naquele tempo tampouco poderia ter sabido. Teria sido aquele olhar, prévia do precipício, seu início, sem fim?

                                   Recorda que semanas atrás, aceitara permanecer junto a chama, sim, esta mesma que persistia tentando carregá-la. Entendia que ela ajudava o vento a se espalhar, sabendo não haver nada ali, nem emoção, nem razão. As chamadas não atendidas seriam problema para outros dias, ‘outras eu o resolverão’, pensava. Assim, seguia esquecida de si, mas, confessa, lhe incomodava a insistência daqueles braços em lhe guiar, ‘tem que ser assim, senão você voa’, ela relembra com nitidez. Na ocasião, sabe que optara por ficar, ou melhor, deixar-se ir, ‘afinal, não é tão ruim, além do mais, não se barra tempestade, uma hora hei de partir’. Naquele momento, tal como agora, mantinha-se refugiada, como era seu costume. O peso da mão, porém, dá início ao declínio dos passos, a rota de fuga surge como única opção, ‘temos que ser discretos para que o caçador não perceba’, mas ele percebe, seu olhar que cobiça a rua é delator. O sentimento que a memória lhe causa surge tardiamente.

                            Inicia a premeditada fuga. Encontra a rua, mas dela não se ocupa, a atenção recai sobre rostos inexpressivos, como se os braços, numa pantomima indistinguível, apenas assinalassem o desequilibrado jogo de luz e sombra que ali se percebia, ‘fora isso que buscara? ’, questiona, mas de si não obtém resposta. À distância de poucos passos a encontra. Sim, fora o olhar dele que ela sentira ainda lá dentro, fora ele quem lhe havia chamado, trazendo em si uma única mensagem: ‘eu estou aberto ao vento, não pretendo te prender. Assim, aguardo por você’. Sabendo-se tal conteúdo imã, encontra o rumo que deve tomar.

                          Assim, no instante daquele olhar reconhece o cheiro da memória, doce, picante, certamente inconfundível. A emoção da cena lhe toca. Sabe que fora este o aroma que a invadira por inteira, tirando-lhe qualquer defesa, 'o instante é rei', recorda. O abraço lhes vem como confirmação: ‘como pude esquecer como é bom estar aqui’, ele diz, ela apenas sorri, compartilha da mesma voz, entende a cumplicidade como a entrega d’alma.  Ali, não há mais qualquer tempo verbal, existem em todos. Em quaisquer dimensões se sabem certeza sem juramentos. O céu enluarado reconduz a queima, quase prescrita, trazendo em si o perfume que o abraço sustenta. Compreende, a lua é peito que encontra. É terra, onde a tempestade sabe ser lar.
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